domingo, 2 de outubro de 2016

Coveiro de Santa Comba na paz dos cemitérios

Dois anos após a morte de Salazar, dois jornalistas, Adelino Gomes e João Paulo Guerra, passaram pelo cemitério de Santa Cruz do Vimieiro e, à conversa com o Sr. Vicente, o respectivo coveiro, ficaram a conhecer melhor a realidade de um país mergulhado na ordem e na paz dos cemitérios. A mentalidade da ditadura rural que atrasou Portugal ao longo de meio século estava ali, ao vivo, no cemitério do Vimieiro, debaixo daquelas pedras tumulares. O Sr. Vicente tinha conhecido Salazar em vida. Recordava-se dos seus passeios, sozinho entre os pinhais.

Entrevista de Adelino Gomes e João Paulo Guerra, Setembro 1972

A Censura, que por vezes andava distraída, deixou passar a entrevista que foi para o ar na Rádio Renascença, em Julho de 1972. 
Por acaso ou não, menos de um mês depois, porém, os programas da RR para os quais trabalhavam os dois jornalistas, Página Um e Tempo Zip, foram suspensos pela Secretaria de Estado da Informação.  



-         Coveiro - De onde são, se podem dizer? De onde são?
-         Adelino Gomes - De Lisboa.
-         Coveiro - De Lisboa? Ainda cá não estiveram vez nenhuma?
-         Adelino Gomes – Não, não.
-         Coveiro - Então, eu gosto de explicar é a pessoas que ainda cá não estiveram vez nenhuma. Pois a dele é esta. Aqui é uma irmã, Dona Elisa, morreu há dez anos, ali é o pai, lá adiante é a mãe, ali é um cunhado e lá adiante é um sobrinho e afilhado do senhor doutor Oliveira Salazar, ou seja, pai e filho. Tem três irmãs vivas. Uma é viúva, que tem aqui o marido. Para essa viúva tem uma pedra guardada da parte de lá daquele portão, as pedras brancas, as que estão encostadas ao muro. É tal e qual aquela do marido. Tem mais duas irmãs solteiras, para essas duas irmãs solteiras tem estas duas pedras guardadas para elas. É tal e qual estas duas pedras que estão aqui. O senhor doutor Oliveira Salazar...
-         Adelino Gomes - Foi ele que as mandou guardar?
-         Coveiro - O senhor doutor Oliveira Salazar mandou cortar estas quatro pedras, estas duas que estão aqui e aquelas duas que estão acolá, mandou-as cortar na Quinta que era dele em Óvoa, mandou-as cortar, mandou-as arranjar e mandou-as pôr aqui. Conforme vão morrendo assim se vão empregando as pedras. Assim como a dele esteve ali quinze anos, que ainda se conhece acolá na cal, até que se empregou a pedra. Pois isto era terreno deles, aqui o cemitério assim como este pinhal que está aqui. Aquele muro que lá está adiante estava aqui encostado a estas tampas, virado àquela tampa de ferro lá em cima. Do muro para cá, quando ele cá estava, tudo isto era terreno deles. E eles deram este terreno para a Câmara fazer o cemitério. E um dia, mais tarde, o senhor doutor Oliveira Salazar comprou este pedaço até ali à rua, até ao portão, para ele e para a família. Primeiro deram o terreno e depois compraram-no. Não é que não lho quisessem dar mas o homem não quis. E aqui está este grande homem debaixo das pedras. 

   As irmãs que são solteiras continuam esta carreira, que é a Dona Marta e a Dona Leolpodina. Como o senhor doutor Oliveira Salazar era solteiro e como tinha mais duas irmãs solteiras determinou cortar estas quatro pedras iguais para continuar a carreira dos solteiros. A Dona Laura, que é viúva, que tem aqui o marido e tem a pedra dela da parte detrás do portão, nem que seja das últimas a morrer o lugar dela está em aberto para ficar ali ao lado do marido. Depois, têm um filho, o doutor António. Como tem cinquenta e tal anos e está solteiro, o tio já cá mandou pôr a pedra a contar em ficar aqui nos terrenos dele. E esse senhor tem mais duas irmãs, mas para elas não mandou cá pôr pedras nenhumas porque são casadas. Vão depois para onde os maridos quiserem. O senhor doutor Oliveira Salazar está da seguinte forma: tem dois bancos debaixo da urna, da parte de cima da urna tem três tampas. Uma é em cimento, está toda encimentada em cima dos muros. Tem outra de aço, abraçou a de cimento e é toda chumbada em toda a roda por causa da humidade não entrar lá dentro. Para segurança tem uns parafusos em toda a roda e depois é que botaram umas pazadas de terra entre a de aço e entre esta para esta ficar assente em terra, que é para igualar os pais. Mas os pais não estão assim. Os pais começaram a botar terra em cima da urna até cá acima. Só têm é unicamente as pedras. E o senhor doutor Oliveira Salazar está assim porque a última irmã que morra está previsto que o tiram daqui para Lisboa porque um homem deste valor não pode ficar aqui toda a vida. Por isso mesmo ficou diferente dos pais e vem embalsamado e em caixão de chumbo para um dia o poderem tirar daqui para Lisboa.
-         Adelino Gomes – O senhor é de cá?
-         Coveiro - Sou, sou.
-         Adelino Gomes - Nasceu cá, foi?
-         Coveiro - Bem, quer-se dizer, o senhor falou assim por...
-         Adelino Gomes - Por saber tanta coisa.
-         Coveiro - Os senhores não são de cá, de Santa Comba Dão?
-         Adelino Gomes – Não, não.
-         Coveiro - Ah pois.
-         João Paulo Guerra - O senhor conheceu-o?
-         Coveiro - Ah, então ainda falei algumas vezes com ele, homem. Isto era um homem simples, um homem popular, um homem que não tinha vaidade nenhuma, tanto falava para o pobre como para o rico.
-         Adelino Gomes - O senhor trabalhou para ele?
-         Coveiro - Nunca trabalhei para ele. Quer-se dizer, eu antes de estar aqui era cantoneiro da estrada de Santa Comba Dão, da Câmara de Santa Comba Dão, e por acaso, por acaso até o conhecia e falei com ele porque foi o seguinte. Eu tomei conta de uma estrada que passa no meio da Quinta de onde vieram estas pedras e por sorte essa estrada calhou-me a mim, não é? E conheci-o por causa disso. Bem, eu sou de cá mas não tinha assim confiança com ele, não tinha nada, não é? Mas como eu lá trabalhava na estrada, um belo dia, até vou contar uma que me aconteceu. Um belo dia, como era a primeira vez, este homem ia pela estrada fora, sozinho...


-         João Paulo Guerra - Ele costumava passear sozinho?
-         Coveiro - Sozinho, pela estrada fora. Mas a polícia ia longe dele, lá nos pinhais, uns do lado e outros do outro.
-         Adelino Gomes - A vigiar?
-         Coveiro - A vigiar mas longe, longe.
-         Adelino Gomes - A polícia ficava ao longe?
-         Coveiro - Longe, longe. Este homem ia encostado a uma cana, da India, assim desta altura. Isto já foi há uns quinze anos talvez. E quer-se dizer, este homem quando apareceu numa curva da estrada eu, como era a primeira vez, custou-me aquilo imenso. Ai... lá vem o Salazar. Fiquei assim temido. Ai... lá vem o Salazar. Ai... E fiz aquela coisa até para me ir esconder lá dentro de umas mimosas. Temi-me, fiquei assim temido. E depois digo assim: Então vou-me eu esconder se o homem já me viu - eu a falar lá com os meus botões - eu hei-de esconder-me se o homem já me viu? O homem até há-de julgar que eu que me escondo até para fazer qualquer maroteira. Eu a lembrar-me disto tudo. E depois o homenzinho foi indo, foi indo, até que chegou lá perto de mim e eu saí do meu trabalho, aí retirado uns quatro metros, saí de lá para o meio da estrada e cumprimentei-o: Passou bem, senhor doutor? «Bem. Como está?» Depois meteu ele conversa. «Então o senhor anda a zelar a estrada?» É verdade, senhor doutor. «Tem que ser, faz favor de continuar» e assim, «porque a duração de uma estrada é as limpezas» e assim e assado. Bem, com muita conversa. No fim dele se ir embora digo eu assim: Ora vejam lá, eu com tanto medo do homem, com tanto receio, e o homem ainda a puxar conversa.


-         Adelino Gomes - Então e o senhor veio para aqui, para o cemitério, porquê? Para ganhar algum dinheiro?
-         Coveiro - Não. Eu sou empregado da Câmara.
-         Adelino Gomes - E está aqui mandado pela Câmara?
-         Coveiro - É isso. Eu sou empregado da Câmara. Quem faz aqui o trabalho do cemitério sou eu. Quem arranja o cemitério, quem varre isto tudo sou eu.
-         João Paulo Guerra - Estes versos aqui em cima da campa...
-         Coveiro - Isso veio de Lisboa.
-         João Paulo Guerra - Não sabe quem os mandou?
-         Coveiro - Por acaso nunca fiquei a saber. Sabe porquê? Porque nem ele se assinou aí e por sorte o homenzinho entregou-me isso e por sorte chegaram aí umas outras visitas e eu comecei a falar lá com essa visitas e o homenzinho foi-se embora sem eu lhe perguntar o nome.
-         Um popular – Ó Vicente, olha os bilhetes.
-         Coveiro – Isto aqui não há bilhetes. Se dão alguma coisa é porque querem.
-         João Paulo Guerra - Vem cá muita gente?
-         Coveiro - Vem cá muita gente mesmo.
-         Adelino Gomes - Também vêm cá estrangeiros?
-         Coveiro - Vêm, vêm, muitos estrangeiros.
-         Adelino Gomes - Está bem, está bem. Então e onde é que o senhor aprendeu aquilo que nos disse? A lenga...


-         Coveiro - Onde é que aprendi? Quer-se dizer, a família copiou umas certas coisas, porque já se vê que eu não adivinhava essas coisas, não é? E depois aprendi. Estudei e aprendi.
-         Um popular – E o senhor diz que isto está tudo em betão. Para quê?
-         Coveiro – É para conservar. Para mão deixar entrar a humidade.
-         O popular – Ouvi dizer outro dia em Paris que ele já cá não estava. Que o tinham levado.
-         Coveiro – E então eu estava aqui a guardar o quê?
-         O popular – Também disseram que estava aí a Guarda Republicana.
-         Coveiro – Estiveram cá oito meses. De noite e de dia.
-         Outro popular – Agora já ninguém o quer.
-         Coveiro – Agora só vêm aí é rondar de noite.
-         O popular – Mas desconfia-se que venham cá buscá-lo?
-         Coveiro – Não. Foi o Rádio Moscovo que anunciou qualquer coisa, que o queriam vir roubar.
-         O popular – Mas para que é que o queriam levar? Que ideia é que tem o senhor?
-         Coveiro – A minha ideia não é nenhuma. Eu estou aqui para ganhar o meu dinheiro, a minha ideia não é nenhuma. Mas diz-se que só lhe queriam levar a cabeça que é para estudarem nela.
-         Populares (risos) – Para estudarem?
-         Coveiro – Como era um homem muito inteligente!... Mas a gente sabe lá a ideia de cada um. Mas as coisas são como são.
-         Outro popular – E não está aí reservado um lugar para a governanta dele?
-         Coveiro – É porque ela não quer vir para cá. Ainda ontem ela cá esteve e falou nisso. Mas ela quer ir é para a terra dela.
-         João Paulo Guerra - Ela vem cá muitas vezes?
-         Coveiro – Vem, vem. Esteve cá ontem.
-         João Paulo Guerra – E onde é que ela mora?
-         Coveiro – A terra dela é ao pé de Coimbra. Mas compraram-lhe um andar em Lisboa.
-         João Paulo Guerra – Quem é que comprou?
-         Coveiro – Não sei, não sei quem comprou. Havia de ser o Governo, pois então. Juntaram-se e compraram-lhe aquele andar de uma casa. E puseram-lhe uma tençasinha e lá está a viver.
-         Um popular – O que me disseram é que ela queria ficar ao lado dele.
-         Coveiro – Não, não. Isso é mentira. Ao lado dele, em qualquer altura, sabe quem é? É a irmã, a Dona Marta.
-         Adelino Gomes – Ele casou-se com ela?
-         Coveiro – Não chegou a casar com ela, porque ela até já disse que não chegou a casar.
-         João Paulo Guerra – Mas como é que sabe?
-         Coveiro - Eu tive o arrojo de lhe perguntar essas coisas para não estar aqui a mentir ao povo.
-         Adelino Gomes – E ela disse que não?
-         Coveiro – Ela disse que não. Esse boato correu do Brasil para cá.
-         João Paulo Guerra – Pois isso veio num jornal brasileiro, que eles se tinham casado.
-         Coveiro – Pois e depois espalhou-se para cá, que casou, que casou. Não casou nada. Bom. Casou lá de outra maneira, pronto. Lá se arranjou, porque ele era homem como a gente. Uma mulher que está a acompanhar um homem 50 anos…
-         Adelino Gomes - Pois, está bem.
-         Coveiro - Pois é.

-         Adelino Gomes - Bom, vamos andando? Olhe, faz favor...
-         Coveiro - Muito obrigadinho, saúdinha é o que se deseja, boa viagem.
-         João Paulo Guerra - As pessoas quando vêm cá costumam dar-lhe alguma coisa?
-         Coveiro - Uns dão, outros não dão.

-         João Paulo Guerra - E quanto é que faz com essas gratificações?
-         Coveiro - Então, isto não é uma coisa certa. Porque eu não posso pedir a ninguém. Se quiserem dar, dão. Quando os senhores estavam aqui não estava aí uma gente? Foram-se e não deram nada. Se querem dar, dão.
-         Adelino Gomes - Então e quanto é que o senhor recebe da Câmara?
-         Coveiro (baixando a voz) - Sabem quanto é que é o meu ordenado? São 53 escudos. Se não é verdade, eu não saia daquele portão para fora.
-         Adelino Gomes – Então e o senhor está para aqui a dizer todas estas coisas e a servir os interesses deles e a ganhar tão mal?
-         Coveiro – Então, eu antes de estar aqui, era cantoneiro, já contei. E o meu ordenado era esse na mesma.
-         Adelino Gomes – O senhor nunca disse ao Salazar para ele o aumentar?
-         Coveiro – Ele, coitado… As coisas lá no tempo dele também não estavam como estão hoje.
-         Adelino Gomes – Mas havia muita gente que ganhava muito bem.
-         Coveiro – Ah, pois. Lá os… Bom, para não falar de outra maneira, lá os da gamela. Para não dizer outra coisa.
-         João Paulo Guerra - E estas flores aqui, quem é que as pôs?
-         Coveiro - Isto é tudo visitas.
-         Adelino Gomes - Vêm cá mais mulheres ou homens?
-         Coveiro - É um pouco mais ou menos…
-         João Paulo Guerra - E pessoas conhecidas, não costumam vir?
-         Coveiro - Pois então não costumam?! Pessoas importantes.
-         João Paulo Guerra - E o senhor conhece algumas delas?
-         Coveiro - Ora bem, umas conheço, outras não conheço.
-         Adelino Gomes – O Dr. Paulo Rodrigues, costuma vir cá?
-         Coveiro – Quem?
-         Adelino Gomes – O Dr. Paulo Rodrigues, aquele que era secretário de Estado, um assim de óculos, que chorou muito no funeral?
-         Coveiro – Talvez viesse mas foi só no princípio.
-         Adelino Gomes – Agora, já não? Já não precisa.

-         Coveiro - Então, é assim. O senhor está a falar bem.
-         João Paulo Guerra - Quem é que vem cá mais vezes, que o senhor conheça?
-         Coveiro - É uma senhora que até o homem era lá qualquer coisa lá no Estado e assim. Essa senhora vem cá muita vez. Quem diz essa diz outra que é de… Que é de ao pé de Lisboa. De Sintra.
-         Adelino Gomes – Então e gente nova não vem?
-         Coveiro – Vem mas é só de visita.
-         João Paulo Guerra – E o senhor almirante Tomás, não vem cá às vezes?
-         Coveiro – Por acaso só veio cá quando ele faleceu. Depois não voltou cá.
-         Adelino Gomes – E o Tenreiro?
-          Coveiro (baixando a voz) - Um que veio cá foi o doutor Marcelo Caetano quando fez um mês. Assistiu aí a umas missas e assim e veio juntamente a Legião Portuguesa acompanhá-lo até aqui. Até deixaram aqui uma cruz que até a tenho acolá, numa casa.

-         Adelino Gomes - Então não a pôs aqui?
-         Coveiro - Esteve cá muito tempo. Mas as pessoas, a família, começaram a dizer que uma coisa estando cá muito tempo que parece mal, que se torna aborrecido e vergonhoso e assim e eu tive que a tirar.
-         Adelino Gomes - Ah sim?
-         Coveiro – É assim.
-         Adelino Gomes - Bom. Então, vamos andando.
-         João Paulo Guerra - Vamos andando. O senhor já tem aqui… mais clientes.

Entrevista de Adelino Gomes e João Paulo Guerra, Setembro 1972

2 comentários:

luis disse...

E eu a pensar que ele era pobre e afinal era quase "O Dono Disto Tudo" até do cemitério. É obra!

Anónimo disse...

Isto ajuda-nos a compreender a existência da tantos salazares na mentalidade dos anibais domésticos que nos governam. Que azar!!!