quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Maria Carlota Álvares da Guerra, por João Paulo Guerra


Estou a olhar as tuas velhas fotografias, mãe, e parece que estou a ouvir-te. Tinhas uma voz fresca, timbrada e bem colocada, com a qual em pequeno me embalavas cantando fados dolentes e, mais crescido, me ensinavas a dizer poemas. A questão, mãe, é que me pediram que falasse de ti e eu vim visitar a memória ao álbum das recordações a preto e branco.

Na belíssima fotografia na relva do Gandarinha, em Cascais, nos anos 40, a mãe ao meio, a Maria do Céu e eu, um de cada lado, parecemos um cartaz de um filme sobre a felicidade: Mãe e filhos encontram-se bem. 
A mãe cuidava de embalar as nossas pequenas vidas com belas histórias, poesia, cantigas e disparates só nossos que criavam a nossa intimidade e nos faziam rir até às lágrimas. E foi assim, guiados pela sua voz, que nós demos os primeiros passos na vida, num mundo com alguma fantasia, muita imaginação, um certo delírio. Um pequeno mundo fechado, protegido, sem grandes contactos com o exterior, enquanto isso foi possível. Um mundo no qual a mãe, Maria Carlota, andava uns bons anos à frente das mentalidades da época. Era uma mulher livre e independente numa sociedade tacanha e preconceituosa.
Também era uma mãe divorciada e uma mulher sozinha, estigma que sugeria todos os olhares turvos do tempo e do lugar. E até fumava, calcule-se. E andava a cavalo, imagine-se. Uma vez por outra foi buscar-me à escola a cavalo e lá vim eu, à garupa do Caranguejo. O máximo!
Vivíamos com os avós maternos numa pequena quinta em Cascais que o avô João Guerra, de Monção, transformara numa casa à moda do Minho, com vinhas e latadas. A avó Carlota, ribatejana, tratava da casa e cozinhava que era um regalo. Eu mais a minha irmã, Maria do Céu, crescíamos em contacto com a terra. A mãe jardinava e ensinava-nos os segredos da jardinagem. O avô, farmacêutico reconvertido em industrial da pesca, matava saudades cultivando a terra, por desfastio. E, uma vez por ano, uma junta de bois lavrava a terra para semear o milho suficiente para alimentar, durante um ano, uma enorme capoeira de galinhas. A recolha dos ovos, por entre o matagal da capoeira, era atribuição minha e da Maria do Céu: «Embora ver se há ovos?». E lá íamos.
Até que, crescendo nós, a casa se tornou pequena. Mudámos então para um casarão em frente da Cidadela e vieram as mobílias da casa fechada de Lisboa, uma fonte de sombras e segredos, encerrados em armários, gavetas, malas e caixas, que nós visitávamos, de tempos a tempos, fascinados na infância. Mais para o fim da vida do avô, a família voltou ao Casal de Santa Maria, a casa rústica da nossa infância, com os seus pomares e mistérios. Dizia-se que em noites de luar o “Tio Almeida” se sentava junto à sua árvore preferida, uma malata mesmo em frente da janela da cozinha. O “Tio Almeida” era um fantasma residente.
A mãe era muito jovem e nós, crescendo, fomo-nos aproximando da sua idade. Verdade. Houve muitas fases da vida em que tínhamos amigos comuns, uma trupe de gente gira com a qual estava sempre a acontecer alguma coisa, alguém estava de chegada ou ia alguém partir para qualquer lado, estava sempre alguém a passar por dentro de qualquer acontecimento. Nós vivíamos num mundo um tanto sobressaído dos livros, envolvidos por leituras em família, mas também um pouco como personagens de uma ficção que recreávamos. A cultura dominante era portuguesa. Mas sobre a cultura portuguesa, nesses tempos, reinava a cultura francesa. Na telefonia ouvíamos fados, canções portuguesas e francesas que a mãe trauteava, até que chegou o rock and roll, na bagagem dos primos que voltaram da América. Quando o gira-discos entrou lá em casa era já a idade do rock
A mãe lia e traduzia-nos em directo Jacques Prévert. Ainda tenho uma edição de Paroles que havia lá em casa. É da Gallimard, 1949. Mas tínhamos um livro especial à cabeceira das nossas vidas. Intitulava-se “Histórias de Dona Redonda e da Sua Gente”, de Virgínia de Castro e Almeida. De alguma maneira o nosso mundo confundia-se com o imaginário delirante das personagens e enredos de Dona Redonda, a Zipriti, o Bu, a Dona Maluka, a Dona Catapulta, no cenário da Charneca e na estalagem do Monte do Toutiço.
A trupe de amigos era constituída à semelhança da mãe, sempre também a fazer alguma coisa para além do seu trabalho. Escrevia poemas e histórias, coreografou um bailado, encenou sucessivas peças representadas entre amigos. Eu entrava numa dessas peças, com uns bigodes postiços e respondia à deixa «Vai chover», com uma tirada sentenciosa: «Que chova. Valha-nos o tempo com a sua coerência, já que os homens não querem saber da coerência para nada». Era no tempo em que o tempo queria saber da coerência. Eu teria uns 13 anos. A minha irmã, Maria do Céu Guerra, disse mais tarde numa entrevista que o actor da família era eu. Ora, ora.
A vida despreocupada que vivíamos era um tanto de ficção. Uma noite, quando pensavam que eu já dormia, a mãe e a avó cochichavam sobre dificuldades de dinheiro. O negócio de pescas do avô estava em vias de ser engolido pela frota dos tubarões do almirante Tenreiro. O avô ia vender o único barco que não tinha sido levado por hipotecas e comprar um pequeno prédio de rendimento em Algés. Mas era também hora da mãe trocar o lugar de regente escolar por algo mais efectivo e que rendesse mais. E havia um horizonte: a mãe tinha respondido a um anúncio que pedia uma redactora para uma revista feminina com lançamento à vista. Foi assim que nasceu a Crónica Feminina, em Novembro de 1956, com Milai Bensabat como directora e Maria Carlota Álvares da Guerra como chefe de redacção. E ao nosso imaginário de crianças acrescentaram-se então histórias, casos e segredos, ocupações e trabalhos, consultórios diversos, que diziam alguma coisa às mulheres, fossem elas princesas, donas de casa, trabalhadoras.
Chevalier e Maria Carlota
Eu e a Céu, como sempre, e apesar do carácter profissional da ocupação da mãe, envolvíamo-nos. Creio bem que a Céu foi modelo juvenil para uma ou outra capa da revista. Eu desempenhei a primeira actividade com carácter jornalístico: fiz fotos para entrevistas da mãe – teria uns 16 / 17 anos - e lembro-me de fotografar entrevistas com Maurice Chevalier, Fernandel, Serge Lifar, Sacha Distel, pelo menos. E até participei numa fotonovela da Crónica. Fazia, não me lembro bem, mas talvez papel de parvo. E a Maria Carlota tinha ideias e iniciativas que só muito mais tarde passaram pela cabeça dos jornais. Por exemplo, foi apanhar ao Entroncamento o comboio que trazia para Lisboa o jovem cantor Joselito e o “Pequeno Rouxinol” desembarcou em Santa Apolónia pela mão… da Crónica Feminina.
A Crónica não era propriamente sufragista – apesar das mulheres não terem então direito a voto em Portugal – e ainda menos feminista. Mas a revista pôs as mulheres a ler – o que já não foi pouco - nos transportes, nas salas de espera, nos intervalos do trabalho, no cabeleireiro. A Crónica Feminina cabia na malinha de mão e esse, associado ao preço (1$50), foi o primeiro segredo da revista, que chegou aos 150 mil exemplares semanais. Naquele tempo, 150 mil exemplares nem A Bola. O segundo foi o conteúdo de interesses de mulheres, ligado à vida, ao quotidiano. Na altura, as «cabeças pensantes» trataram com alguma arrogância a revista, que não tinha o ‘glamour’ da Elle ou da Marie Claire, que se vendiam em Portugal nas edições francesas. Mas hoje até se lhe apropriam do título, ao que julgo sem sequer pedir licença.
Guiados pela educação que a mãe nos dera, a Maria do Céu escreveu um livro de poemas – “São Mortas as Flores”, Editorial Organizações, Lisboa 1963 - depois foi para o teatro, na Faculdades de Letras, na Casa da Comédia, no Teatro Experimental de Cascais. Eu fui para a rádio, depois para os jornais, depois para a rádio, depois para os jornais, etc. Comecei, ainda estudante universitário, com uma actividade pré-profissional na Rádio Renascença e, de algum modo, pela mão da mãe. A Maria Carlota, do trabalho na Crónica e da passagem pela rádio, conhecera o Dinis de Abreu, estagiário do Diário Popular a quem fora confiado o projecto de produzir e realizar um programa de rádio, para jovens, nas tardes de sábado na Rádio Renascença. Uma espécie de “Salut les Copains”, então em voga na rádio francesa. O projecto intitulou-se “Nova Vaga” e juntou os jovens Maria do Céu Guerra e João Mota, a falarem de teatro, Lauro António, a falar de cinema, Fernando Correia, a falar de desporto, eu a falar de música, Daniel Ricardo e Dinis de Abreu a falarem de tudo um pouco, todos em directo para o gravador do José Manuel Moreno Pinto.
Amália, Maria Carlota,  Greco
De maneira que a Maria Carlota, para além de mãe, uma amiga e uma irmã mais velha, passou também a ser camarada de profissão. O projecto do programa “Nova Vaga” não durou muito. Mas no final o Joaquim Pedro convidou-me para estagiar como locutor na RR. E ao fim de um ano de estágio na RR fui convidado pelo Luís Filipe Costa, via Matos Maia, para integrar a equipa do Serviço de Noticiários do Rádio Clube Português. Fui a correr. Na rádio não cheguei a ser contemporâneo da minha mãe que, entretanto, voltara à Crónica Feminina. Mas tivemos colegas e ficámos com amigos comuns.

Há uma foto tua, mãe, ainda a preto e branco, com gente da rádio, num almoço em Porto Alto. Estás tu, elegantíssima, entre o Cândido Mota, imberbe, e o João Martins. E com a tua letra está escrito no verso: O Trio Admira!

Irónica sempre e polemista terrível, era assim a Maria Carlota. Uma vez a Vera Lagoa – que nutria pela minha mãe um ódio de estimação amplamente retribuído – atreveu-se a meter-se com ela numa crítica no Diário Popular, zurzindo uma crónica da rádio. Maria Armanda Falcão, o nome real de Vera Lagoa, tinha-se separado recentemente de José Tengarrinha e, na resposta à crítica venenosa no Diário Popular, a Maria Carlota escreveu, ainda com mais veneno, qualquer coisa como isto: “Para que você me atingisse precisaria de ter garra. E você já nem sequer tem garrinha».

A Maria Carlota trabalhou em dois períodos na Crónica Feminina e, pelo meio, escreveu crónicas e programas para a rádio, transmitidos na Renascença, primeiro, depois no RCP. Quanto à Crónica Feminina acabou mal. Quando a mãe regressou, dos patrões iniciais, homens sérios e empreendedores, Mário de Aguiar e António Dias, um falecera e outro passara o negócio. Quando a Agência Portuguesa de Revistas alegadamente faliu, a minha mãe viu-se no desemprego sem um centavo de indemnização. E a Maria Carlota acabou a vida profissional a fazer alguns biscates para jornais e revistas e traduções, muito mal remuneradas, embora premiadas algumas delas, e depois a receber uma pensão baixíssima. E ainda teve que pagar os descontos que tinham ficado pelo caminho, na sua segunda passagem pela Agência Portuguesa de Revistas, entre a empresa e a Caixa dos Jornalistas.
Eu estive dez anos no RCP, contando dois anos e meio no serviço militar. Na tropa, tinha já concluído o Curso de Oficiais Milicianos em Mafra quando a minha mãe teve uma conversa muito séria comigo. Perguntou-me se eu queria deixar o País para não ir à guerra, dizendo-me que compreenderia e me apoiaria na medida do possível. A questão que me pôs não era de objecção de consciência mas de medo e sobrevivência. Disse-lhe que não, que a minha vida era aqui. 
E assim, numa manhã de Julho de 1965, a mãe foi ao Cais da Rocha despedir-se de mim à partida do barco para Moçambique e a última imagem que vi no cais, já da amurada no paquete, foi a mãe a amparar a minha irmã que desfalecia de comoção. Enquanto estive em Moçambique, morreu o meu avô, João Guerra, pai da minha mãe, menos de um mês depois nasceu-lhe o primeiro neto, o Paulo, meu filho mais velho. E após a morte da Calhó, a Maria do Céu encontrou num armário da casa materna, dentro de uma gaveta, atadas com uma fita e um laço, todas as cartas que eu escrevi à mãe, desde a primeira escala na viagem para Moçambique até ao anúncio do embarque de regresso a casa: "A mãe diz-me que o Paulinho já anda mas aqui o tempo não passa..."

Pela parte dos avós maternos a família era de formação muito conservadora. A avó Carlota era uma herdeira arruinada de uma família de proprietários rurais de Salvaterra de Magos, alguns dos quais regressados ricos da emigração no Brasil. Era uma senhora pequenina e redonda, muito terna, que dizia ingenuidades deste género: «O racismo é uma coisa horrível. Eles não têm culpa nenhuma de serem pretos». O avô era situacionista, presidente do Grémio dos Armadores de Pesca do Bacalhau. A única conversa que o avô teve connosco sobre política foi para desabafar que as eleições do regime eram uma grande maçada: ele tinha que votar em Cascais, onde residia, em Lisboa, onde era a sede do Grémio, e na outra banda, onde os barcos descarregavam e punham a secar o pescado. A mãe detestava o carácter repressivo do regime, a tacanhez, o obscurantismo. Mas não falava explicitamente de política. No entanto, nunca se opôs, quando crescemos, a que tivéssemos as nossas ideias e opções associativas, culturais, políticas e agíssemos em consequência.

Chalé Brito: o casarão de São João do Estoril
Ao longo da vida, por contingências diversas, nem sempre mantivemos uma relação de muita proximidade. A vida trouxe-nos para Lisboa e a Calhó - como a minha irmã e eu sempre lhe chamámos desde pequenos - viveu em S. João do Estoril, num casarão de três andares onde sonhou juntar filhos e netos. Mas o projecto de condomínio familiar do início dos anos 70 fracassou rapidamente. E a Calhó lá ficou no imenso casarão, onde os netos passavam alguns períodos de férias, a dois passos da praia da Azarujinha, vivendo episódios que ainda hoje recordam no meio da maior galhofa. Eu e a Maria do Céu, com as nossas vidas, aparecíamos de vez em quando. Era sempre um poiso para voltar a juntar amigos e família.
A mãe ainda viveu mais uma vez em Cascais, que adoptara como sua terra, com os seus cães e gatos, ia e vinha sozinha de comboio, até que a convencemos a vir para mais perto de nós. Veio viver para a Graça e creio que foi o início do seu fim. Mas com efeito voltámos a ver-nos com mais frequência, fazíamos grandes almoços de família no pequeno quintal da sua casa, conversávamos sobre o trabalho nos jornais nos dias de hoje. Eu explicava-lhe o circuito tecnológico das notícias, reportagens e crónicas, da fonte ao papel impresso, como ela me ensinara a maquetar a página de uma revista, quando o fazia de olhos fechados na Crónica Feminina. Quando o jornal em que eu trabalhava me mandou para Timor, em 1999, a Clara, minha mulher, teve grande cuidado em lhe ocultar a situação. Mas poucos dias depois, passando num quiosque ao pé de casa, ela leu na primeira página do Diário Económico: «Díli, do nosso enviado, João Paulo Guerra». E comentou mais tarde: «Malandro, não me disseste nada».
Mesmo quando aposentada não reformou o seu dinamismo, entusiasmo e determinação para fazer coisas. Traduzia livros para a Bertrand e peças de teatro para A Barraca, andava sempre a imaginar projectos e a propor ideias. E pouco depois de ser forçada a parar – após a fatal fractura do colo do fémur que ataca as mulheres de idade – recuperou corajosamente, depois foi-se abaixo, andou entre a minha casa e mais pela casa da Céu e um domingo de Setembro de 2002 morreu.

Encontro muitas vezes a minha mãe, muitos anos após a sua morte. É em conversa com amigos comuns que, passados todos estes anos, me falam dela como a minha memória acha que ela bem merece. «A Maria Carlota? Uma mulher de armas», diz o Armando Baptista-Bastos. O José Luís Gordo rima ternura e saudade quando fala da primeira entrevista que deu, ele e Maria da Fé, e foi à Maria Carlota, para a Crónica Feminina. Linda é a história que conta o escultor Francisco Simões. Enquanto professora primária, antes de ser jornalista, a mãe esteve um ano lectivo colocada a dar aulas na ortopedia pediátrica do Hospital da Parede. O Francisco Simões era o único aluno, aprendeu, curou-se, cresceu forte, capaz de manipular as pedras onde encontra formas belíssimas insuspeitadas, e fala da Maria Carlota com um enorme carinho. 

Olho as fotografias, a cores, dos teus últimos anos de vida, mãe. Tens perto de 80 anos, o olhar mantém a mesma vivacidade, o cabelo está todo branco, mas estás como nova. Tens à tua volta filhos, nora, netos, bisnetos. Mexes-te bem e estás a escrever um romance. Intitula-se “O Tempo das Maçãs” mas não chegará ao fim. O que deverias ter escrito, era o verdadeiro romance da tua vida. Porque agora, mãe, quem sou eu para o escrever?


Julho 2009 
Publicado no livro Jornalistas Pais e Filhosiniciativa da Casa da Imprensa, com textos de Artur Portela (o pai Artur Portela), Bárbara Alves da Costa (o pai João Alves da Costa e o avô Aurélio Márcio), Carlos Flórido (o pai Manuel Flórido), Isabel Silva Costa (o pai Silva Costa), João Gobern (o pai Áppio Sottomayor), JPG (a mãe Maria Carlota Álvares da Guerra), José Carlos Fialho (o pai Fialho de Oliveira), José Manuel Freitas (o pai Amadeu José de Freitas), Magda Viana (o pai Rui Cunha Viana), Miguel Correia (o pai Severiano Correia), Miriam Alves e Oriana Alves (o pai Fernando Alves), Nuno Moura Brás (o pai Nuno Brás), Pedro Luís de Castro, Mário Rui de Castro e Paulo Luís de Castro (o pai Joaquim Castro), Rui Tovar (o pai Rui Tovar), Sérgio Veiga (o pai Carlos Miranda), Silva Pires (o pai Fernando Pires), Sofia Rato (o pai Afonso Rato) e Victor Serpa (o pai Homero Serpa. 

3 comentários:

Anónimo disse...

(…) As recordações que me assaltaram, os momentos que revivi e, sobretudo, as memórias da tua mãe, personagem inesquecível com quem tive o privilégio de conviver - não tanto como gostaria mas o suficiente para guardar dela uma lembrança perene - são difíceis de enumerar. A fogosidade na luta, a capacidade de trabalho, a facilidade com que produzia prosa e enchia números inteiros das publicações em que colaborou, o sentido de humor acerado, cáustico, quase desbocado, o desassombro das opiniões, a originalidade das ideias, tudo fazia com que destacasse numa sociedade maioritariamente cinzenta e acomodatícia.
(…) É na nossa recordação que permanece a Maria Carlota. Assim tenhamos nós quem nos projecte para essa única forma de imortalidade que é sermos citados, de vez em quando e com ternura, pelos que recebem o testemunho desta corrida sem meta à vista...

Cândido Mota

Irene Pimentel disse...

Em boa hora vim aqui e li este belíssimo texto sobre a tua mãe. Que saudades tive dela! Lembro-me de uma viagem com ela, a Céu e o Changuito ao Brasil, a casa de S. João do Estoril, onde passei um Natal e uma das últimas vezes, em que cúmplices, fomos as duas ao velório da Amália Rodrigues.
Beijos muitos
Irene

Guapita Dolores disse...

Que texto lindo! A homenagem que faz à sua mãe é deveras marcante. Cabe aos grandes espíritos, deixarem recordações e memórias em nós, da grandeza dos seus feitos.