domingo, 29 de outubro de 2017

Então e depois, João Paulo Guerra?

Por António Macedo

Homenagem promovida pelo Intervalo Grupo de Teatro
Teatro Lurdes Norberto, Linda-a-Velha, 
14 de Outubro de 2017

Se eu tivesse um pequeno lampejo do desmedido e luminoso talento do João Paulo Guerra (meu Camarada e que, ainda para mais se tem dado ao trabalho de ser um dos meus melhores Amigos) não precisaria de mais de 6 ou de 7 minutos, vá, para desatar a mandar vir sobre o muito – o muitíssimo! – que há para dizer a respeito dele, ele JPG, o Jornalista e o Cidadão.

E digo-o com conhecimento de causa e com o privilégio de ter sido testemunha do episódio que vou contar. Auditiva, digamos assim, mas testemunha.
Aqui há uns quase 30 anos, em Novembro de 1991, estávamos na TSF, o João Paulo Guerra liderava a equipa responsável pela edição informativa da noite. E eu a ouvir porque, então, respeitava o princípio segundo o qual, a Manhã da Rádio começa à meia noite e eu atacava pela fresca. Caíu a notícia pouco antes da meia-noite, 11 e meia, por aí. Tinha acabado de ser libertado um cidadão, refém dos jiahdistas, no Líbano, desde Junho de 1985, há seis anos, portanto. Declaração inicial, depois de libertado, qualquer coisa como “lamento não saber nada daquilo que se passou no Mundo nestes últimos cinco ou seis anos”.

Tanto bastou para o João Paulo Guerra ter uma daquelas intermitências de loucura e genialidade que são dele uma insuperável imagem de marca. Desafiada a produtora Paula Mesquita Lopes que, naquele tempo o acompanhava na sadia maluqueira, na obstinação e na competência, o João Paulo Guerra contou, no noticiário da meia noite da TSF, em seis minutos, tudo o que acontecera no mundo nos últimos seis anos. Tudo – ou quase! – ilustrado com sons e com dedicatória: Thomas Sutherland, tivesse ele o nome que tivesse. A Rádio em todo o seu esplendor. Nunca tinha havido seis minutos como aqueles seis minutos – e NUNCA mais voltou a haver seis minutos como aqueles seis minutos. Quem o garante sou eu e eu garanto-vos que se o afirmo é porque é MESMO Verdade!

Escolhi este episódio para início de conversa por duas razões principais (entre outras): porque sintetiza exemplarmente algumas das facetas mais marcantes do jornalista João Paulo Guerra (a capacidade de síntese, o culto do “português de lei”, o arrojo e o atrevimento de nunca desistir nem diante do impossível) e porque demonstra como o jornalista João Paulo Guerra, modelo de independência e de isenção, nunca hesita perante o desafio que lhe coloca o serviço AO público e aos Cidadãos. Há um direito inalienável que poucos praticam como o João Paulo Guerra e esse direito não é tanto o de dizer e de escrever em inteira Liberdade (a Liberdade de Expressão do Pensamento), mas o de enquanto jornalista, o de dizer e escrever aquilo que o Público (os públicos) tem o direito de saber (o de aceder a toda a Informação Livre em inteira Liberdade). Repito: poucos o praticam como o João Paulo Guerra e, já agora, é, muito também por isso, que os ouvintes do Serviço Público de Radiodifusão, não podiam ter melhor Provedor, função, Provedor do Ouvinte, que João Paulo Guerra desempenha actualmente com o brilho – e a UTILIDADE, sim a UTILIDADE! e até a ACTUALIDADE! - que os Programas que tem assinado (com Viriato Teles e, agora, também, com Inês Forjaz) na Antena 1 (sextas-feiras, 4 da tarde) mostram exemplarmente. “Em Nome do Ouvinte” é, hoje, um dos melhores Programas da Rádio Portuguesa – e só não digo que é o Melhor para não ser desmentido pelo próprio João Paulo Guerra (espero que ele esteja a passar pelas brazas e que não esteja a ouvir nada disto...).

Aliás – para Alegria de alguns, Desespero de poucos e Espanto de quase todos! – quando o chamado Conselho de Opinião da RTP vetou (sem justificação alguma!) a indigitação do JPG para o cargo de Provedor pela Administração da firma – o “levantamento popular” que incendiou nomeadamente as redes sociais em protesto contra essa extraordinária decisão do dito CO comprovou – se era necessário! – aquilo que acabo de dizer: o público (os públicos) Mulheres e Homens, Jovens, Donas de Casa e Professores Universitários, Juízes, Músicos, Actrizes e Actores, quase me atrevia a acrescentar Operários &Camponeses, além de Desportistas, empregados avulsos do Comércio da Indústria, consultores, eu sei lá, clamaram contra essa tremenda injustiça, mostrando, com esse gesto, que este, JPG, era o Provedor que eles desejavam ver em funções. Contra a decisão do CO, a Administração manteve – e bem! – a indigitação e o “clamor popular” – chamo-lhe assim porque gosto e porque é uma expressão muito próxima da Realidade! – contribuiu decisivamente para a nomeação concretizada em Março. A voz do JPG é a voz de toda essa gente, mas é, igualmente, a nossa voz, a voz da Rádio, de todos os que a usam e exercem, com gozo e gosto, com independência e em inteira Liberdade. Reconhecendo, como, repito, o faz modelarmente o JPG, que se existe o nosso Direito existe, acima dele, o Direito dos Cidadãos da República, em Democracia e em Liberdade.

Meus Amigos, Minhas Senhoras e meus Senhores.

Muito daquilo que aqui vou dizer a respeito do João Paulo Guerra li-o, por sugestão do próprio, no blogue que ele mantém na rede: “Jornalismo, Diz Que É Uma Espécie De Democracia”. A biografia do João Paulo Guerra está lá toda escarrapachada na escrita luminosa e depurada do João Paulo Guerra, com a ironia e a mordacidade que são, também dele, outra imagem de marca, factos e mais factos, cronologicamente sintetizados e apresentados. Quando o JPG me convidou para ser eu a falar sobre ele nesta iniciativa do Grupo de Teatro Intervalo (à semelhança do que ele fez, brilhante e inesquecivelmente, no ano passado a meu respeito), sugeriu-me que lhe fosse ao blogue (salvo seja!) e que me inspirasse no que ele escrevera. Tinha ideia de já ter percorrido aquelas páginas e tinha a certeza (eu tenho certezas muito parvas!...) de que pouco me serviria a consulta. Para escrever sobre o João, basta ter trabalhado com ele , conhecê-lo e ser Amigo dele – eis o que pensei. Para citar Camilo, revelei-me a mim próprio, “uma adulta e descompassada besta!”. Eu, afinal, pouco ou nada sabia a respeito do JPG. Tinha apenas umas luzes... umas ideias. O João Paulo Guerra é o jornalista com uma “história sem fim”. Sempre com objectivo – o do combate permanente (que, ao contrário da Revolução, é – mesmo – permanente!) pela Liberdade, mas, na verdade – sem fim! É uma história interminável de vitórias atrás de vitórias nesse combate, mesmo quando as vitórias se apresentam – aos nossos olhos desprevenidos – como derrotas... Mas já lá chego...
António Macedo. na homenagem a um amigo,
fez uma evocação do homenageado generosa mas convicta 
No referido blogue, o JPG escreve, sintética e ironicamente que é jornalista “há 19 primeiros ministros, 10 Presidentes da República e 7 Papas”. Ao melómano João Paulo Guerra cumpre-me informá-lo esta noite que é jornalista há 33 discos e 156 Canções de José Afonso e ao benfiquista acrescento que é jornalista há 33 treinadores (de Bella Guttmann a Rui Vitória), 25 títulos nacionais de futebol da 1ª divisão e há 467 golos do Eusébio em 614 desafios com a camisola vermelha. Vermelha – não encarnada. Vermelha!

E esta história, a bem dizer, começa há 55 anos – e é também por isso que aqui nos reunimos esta noite, há 55 anos! – na Rádio Renascença. Programa semanal, “Nova Vaga”, convite do jovem jornalista do Diário Popular, Dinis de Abreu, para integrar uma equipa de jovens, tardes de sábado, e com o João Paulo a irmã Maria do Céu, Maria do Céu Guerra, também ela connosco esta noite, poizatão.
Li, numa entrevista da Maria do Céu, aqui há anos, que, quando eram miúdos era o João Paulo quem tinha jeito para as teatrices. Se a Maria do Céu Guerra deu no que deu – uma das maiores actrizes da História do Teatro Português – imaginem bem quem não estaria hoje diante de nós se lhe tivesse dado mesmo para o Teatro e não para o Jornalismo. Uma coisa é certa: poderíamos estar perante um Grande Actor, mas teríamos perdido um dos Grandes Jornalistas de Sempre.

De caminho, por vir a propósito: nenhum Jornalista – vivo ou morto! – ganhou tantos Prémios, foi tão galardoado – e geralmente pelos pares dele – como o João Paulo Guerra! Seria fastidioso estar para aqui a enumerar todos os Prémios que recebeu, mas não posso deixar de fazer notar que esses Prémios, os mais distintivos das respectivas instituições, foram, por exemplo, da Casa da Imprensa, do Clube dos Jornalistas, da Sociedade Portuguesa de Autores. Antes e depois do 25 de Abril. Chama-se a isto fazer Justiça.

A actriz Maria do Céu Guerra transformou a homenagem
ao irmão numa luminosa noite de poesia.
Que era, aliás, o que não estava a ser feito quando, pelo telefone, chegou à TSF a notícia de um desses Prémios: o Gazeta do Clube dos Jornalistas. A Tsf passava, então, por uma fase de reestruturação e era indispensável fazer uns “ajustamentos” – ou “reajustamentos” – eufemismo que servia para dizer que ia haver despedimentos, melhor, que iam ser COMETIDOS alguns despedimentos. Quando o tal telefonema chegou, João Paulo Guerra estava precisamente a receber a notícia que estava na lista. Na lista dos jornalistas a despedir. A notificação não acabou e o despedimento não se concretizou. João Paulo Guerra viria, depois, a assinar um dos trabalhos de maior fôlego e importância, “Viagens com Livros”, também premiado. Além de ter sido uma série de programas de Rádio, foi, também, uma belíssima edição em CD. Reportagens notáveis, absolutamente modelares, comoventes e entusiasmantes, também melancólicas e denunciadoras, de dedo sempre apontado à Actualidade, tudo inspirado nas e pelas palavras superiores escritas para livros das nossas cabeceiras, mas nas vozes de populares diversos descobertos de lés a lés nos cenários dos romances. Uma coisa gigantesca. Quero dizer: uma coisa de Gigante!
Recuo um passo, para dar dois à frente: chamava-se “O Regresso das Caravelas” a tal série de reportagens que justificava o tal prémio Gazeta do Clube dos Jornalistas anunciado quando o João estava a ser despedido da TSF.

Anos antes – e antes do 25 de Abril -  já o João Paulo Guerra tinha passado por uma situação igualmente bizarra: em Novembro de 1973, foi despedido do Rádio Clube Português um mês depois de ter recebido a medalha de “Bons Serviços” ao cabo de dez anos na equipa de Noticiários daquela estação.
O JPG integrou a primeira equipa de Noticiários do RCP, chefiada por Luís Filipe Costa (de quem o João costuma dizer, lapidarmente, que toda a gente aprendeu com ele, mesmo quem não sabe quem é o Luís Filipe Costa!). Depois da estreia na Renascença, no já citado “Nova Vaga”, de efémera existência, JPG foi convidado a ficar como estagiário na estação e foi de lá que transitou, por convite, para o RCP. Com o João nessa primeira equipa dos Serviços Noticiários, Justino Moura Guedes, João Macieira de Barros, Cândido Mota, Firmino Antunes, Paulo Fernando (esse mesmo, o dos Intocáveis, este disco é intocável mas não é inquebável e aqui vai disto – ou disco, kfg krg, krg!), mais tarde, Jorge Dias, Jorge Moreira, Manuel Bravo, Fernando Quinas (cuja capacidade para sintetizar uma ideia deve ter permanecido ao longo dos anos, dado que, recentemente, ao ser-lhe pedido que fizesse uma comparação entre o RCP onde tinha começado e aquele que retomava as emissões 50 anos depois, dizia, lapidarmente, que naquele tempo havia discos proibidos e, agora, há discos obrigatórios!) e Jaime Fernandes (que, numa emissão em directo na Antena 1, há uns anos, ao falar do passado, disse que quem mais o influenciara e ele mais tentara imitar tinha sido o João Paulo Guerra...).
Perdi-me.
Portanto, eis o JPG na equipa dos Noticiários do Rádio Clube Português dando um piparote inesquecível na forma de fazer e apresentar as notícias da Rádio, desrespeitando a hierarquia do servicinho e valorizando a hierarquia da importância da notícia. Em poucas palavras, em três minutos. De hora a hora. A novidade, tanto como a notícia, no ar! O assassinato de Kennedy, o Vietnam, a explosão do Rock&Roll, o Maio de 68, Woodstock, a queda da cadeira e a morte de Salazar, o golpe no Chile que derrubou Allende, como recorda JPG no blogue dele. O essencial, contextualizado, em 3 minutos de cada vez. Portugal e o Mundo na Rádio com a Censura à perna, mas sempre driblada em grande estilo, nos subentendidos, nas entrelinhas, nos jogos de palavras, “actividades” em que o João Paulo Guerra é o Mestre dos Mestres! E, porém, despedido apesar dos 10 anos de “Bons Serviços”.
João Paulo e Maria do Céu Guerra, com Armando Caldas
O SNI tinha pressionado. Alguém, Pedro Feytor Pinto esse mesmo, não apreciara que João Paulo Guerra tivesse participado num Colóquio sobre Liberdade de Imprensa. Três palavras assustadoras, naquele tempo; para mais, toda na mesma frase: colóquio, liberdade e imprensa. Rua!

Recuou poucos passos o João Paulo Guerra. Da Sampaio e Pina à Joaquim António de Aguiar vão dois passos e o JPG (que já escrevera na “Cena7” da Capital, na Memória de Elefante e na Mosca do Diário de Lisboa onde fixou a expressão nacional-cançonetismo que ainda perdura para designar um certo tipo de Canções que a gente sabe quais são e que o JPG sabe melhor do que ninguém) e o JPG, ingressa, bem pago, na redacção de um semanário que nunca chegou a ser publicado o AE, Actividades Económicas, semanário de grande informação que, segundo os proprietários (os empresários da Torralta) e o jornalista que ligava a Administração à Redacção, Mário Ventura Henriques, se destinava a concorrer com o Expresso – pela Esquerda. Verdade! Produzidos os nºs Zero (creio que dois) o nº 1 foi inteiramente cortado pela Censura, até a previsão do tempo redigida por... José Saramago.
O João era o autor da reportagem que fazia a manchete do jornal. Antetítulo: Fornada de Aumentos”. Título: “O Pão é Político”. Estávamos em plena Primavera Marcelista, assim chamada, o Regime dava os últimos suspiros e o 25 de Abril apanha o João Paulo Guerra a viver da indemnização que tinha recebido do AE (o Jornal acabou por nunca ver a luz do dia e os jornalistas que não quiseram integrar as redacções de outros títulos da empresa saíram com indemnizações de acordo com a legislação então em vigor) a viver dessa indemnização e da retribuição simbólica que recebia no Notícias da Amadora onde era o chefe de uma Redacção de 3 redactores. O economista Sérgio Ribeiro era o director. Sucedera, no cargo, a Carlos Carvalhas.

Uma semana antes do 25 de Abril, no dia 18, Sérgio Ribeiro foi preso em casa. A redactora Helena Neves também e as instalações do jornal – que funcionava em anexo a uma tipografia na Damaia – tinham sido ocupadas pela PIDE. Quem entrasse, já não saía. Nem o carteiro. O João entrou, as instalações acabaram por ser desocupadas depois dos agentes da PIDE (então DGS) terem levado tudo o que entenderam, comprometendo, portanto, a edição seguinte do jornal (para o que precisaram de duas carrinhas tal era a quantidade e o peso do material de que se apropriaram), ainda assim o jornal acabou por ser feito e até foi possível, em duas colunas, saudar o 25 de Abril, na primeira página do Noticias da Amadora posto à venda no dia 25 de Abril de 1974.
Marcelo Caetano, no livro “Depoimento” que escreveu já no dourado exílio carioca recorda esses tempos: “Era forçoso reprimir”. Cita os autores de Canções, as Companhias de Teatro, Escritores e jornais e entre estes cita expressamente o Notícias da Amadora. Era forçoso reprimir o Noticias da Amadora. Chefe de Redacção: João Paulo Guerra.

Então, e depois, João Paulo Guerra?

O fadista João Braga cantou ao fado, acompanhado pelo guitarrista Filipe Rebelo, 
e ainda Jaime Santos Júnior, viola de fado, e o professor Joel Pina,
decano dos músicos de fado com os seus 97 anos, viola-baixo de fado.
Depois, o João Paulo Guerra regressa finalmente à Rádio, na Emissora Nacional, integrando uma equipa de consultores civis que assessora os militares que dirigem a estação. São eles que lhe mostram um alerta assinado por Geraldes Cardoso, então director geral de Informação dirigido às Administrações das Rádios Portuguesas no sentido de não ser dado emprego aos Jornalistas Adelino Gomes e João Paulo Guerra que tinham sido despedidos da Rádio Renascença na sequência da transmissão de uma reportagem sobre a acção do Setembro Negro nos Jogos Olímpicos de Munique, em 1972, e do editorial assinado por Adelino Gomes no programa Página Um e repetido por João Paulo Guerra no Tempo Zip. Pedro Feytor Pinto exige a demissão dos dois jornalistas sob a ameaça da extinção dos Programas. Os produtores do Tempo Zip (Carlos Cruz e Fialho Gouveia) decidem-se pela extinção do Programa; o Página Um continua e Adelino Gomes é despedido.
João Paulo Guerra estava, portanto, impedido de trabalhar na Rádio!

Regressa, portanto, com o 25 de Abril. Mas porque a Matemática nem sempre é infalível quando a política se mete de permeio, a um 25 sucede sempre outro 25 e o João Paulo é saneado. À porta das instalações da EN, na Rua do Quelhas, é mesmo afixado um aviso proibindo a entrada dele. Assina o derradeiro recibo de ordenado sentado no passeio em frente e recebe o cheque das mãos do funcionário que se deslocou expressamente ao exterior para esse superior efeito.
Reclama para os Tribunais, queixa-se aos Governos. A primeira resposta que recebe é da primeiro ministro Maria de Lurdes Pintasilgo. Remetera o assunto para o ministro da tutela. Sucede que o ministro da tutela era a mesma criatura que assinara o despedimento dele da Emissora Nacional.

Voltou aos jornais, “O Diário”, O Jornal, finalmente – e de novo! – a Rádio onde regressa de rompante para as Manhãs de fim de semana (numa equipa com Fernando Alves) e onde edita, depois, em todos os horários. E assina as Grandes Reportagens da Estação que lhe dão Prémios uns atrás dos outros.

Mais recentemente, já neste século, Bom dia e Boas Notícias, assinou durante mais de dez anos a Revista de Imprensa nas Manhãs da Antena1. Pôs milhares e milhares de pessoas a ler os jornais de outra maneira. Atrevo-me mesmo a dizer que pôs centenas a ler jornais. Ponto final. E a ouvir Rádio com os dois ouvidos, nos dois canais. Outro ponto final. Essa actividade tão básica e que o João Paulo elevou à categoria de matéria de luxo também lhe deu Prémio – o galardão mais elevado da SPA! Também lhe trouxe chatices, digo eu, mas isso não vem ao caso. Sei, alguns de nós sabemos, que as outras Rádios andaram anos a tentar combater – no melhor sentido da expressão – a performance conseguida pelo João Paulo com a leitura dos jornais. Nunca conseguiram. O pico de audiências na Um estava por conta dele e nunca mais voltou a ser o mesmo desde que o deixamos de o ouvir dizer Bom Dia e Boas Notícias.
João Braga e os seus músicos levaram ao espectáculo um riquíssimo
repertório de fados com poemas, entre outros, de Pedro Homem de Melo,
Manuel Alegre, Alexandre O'Neill
Por causa da Revista de Imprensa recusou, em 2010, uma primeira indigitação para Provedor do Ouvinte do Serviço Público de Radiodifusão. Ponto final.

(…) A Maria Carlota gostaria de ter estado aqui esta noite. Maria Carlota Álvares da Guerra, jornalista, a Mãe do João Paulo, mais velha do que ele 20 anos. Um dos mais belos textos que conheço do João Paulo – e conheço-lhe textos belíssimos! – é sobre ela, Maria Carlota, está impresso num livro da Casa da Imprensa escrito por jornalistas filhos de jornalistas a respeito dos pais. Pensei citar uma passagem, mas ia desfazer-me em lágrimas se é que ainda não estou...

Esta noite, estão connosco a Maria do Céu Guerra, a pessoa com quem se dá há mais tempo e com quem nunca se zangou em 70 anos; e um dos Amigos desse tempo, de miúdos e da Juventude, um dos Amigos mais antigos com quem mantém contacto mais ou menos regular, João Braga. Até por estar na presença deles e na da Família, os filhos Paulo, João Nuno, Manel e Francisco, as noras, Guida e Sofia, os netos Miguel, Maria e Rafael e a Mulher, Clara (“não há amor como o último”, diz o João e fazem amanhã anos de casados) foi para mim uma tremenda responsabilidade e uma honra desmedida falar sobre este meu Amigo. Ninguém, pela certa, como eles para dizerem do João aquilo de que eu não terei sido capaz...
Fim de festa: João Braga, João Paulo Guerra, Maria do Céu Guerra e
António Macedo ao palco

Este texto já vai longo. Felizmente, o João Paulo Guerra não vai ter de brincar ironicamente com o assunto, como fazia nos tempos do antigamente, dizendo “não faz mal, há-de haver alguém que se encarregará de o pôr mais curto”... Isso, meu caro João, todos o devemos também a ti. Mesmo os que não te conhecem ou nunca ouviram o teu nome. Se mais não houvesse, esta seria razão bastante para te deixar aqui um agradecimento sincero e o testemunho do maior respeito (e até de algum respeitinho do bom...) e, sem graças, da mais profunda admiração.
Muito obrigado, João Paulo Guerra.
 Teatro Lurdes Norberto, Linda-a-Velha, 14 de Outubro de 2017 

domingo, 18 de junho de 2017

Era uma vez um miúdo num país a arder

Apresentação do livro de MIGUEL CARVALHO "QUANDO PORTUGAL ARDEU - Histórias e Segredos da Violência Política no pós-25 de Abril",  bar do Cinearte, A BARRACA, Lisboa 12 ABRIL 2017


Era uma vez um miúdo que tinha quatro para cinco anos no Verão Quente de 1975;
Fez 5 anos no dia 25 de Novembro de 1975 e nesse dia, para celebrar o aniversário do pequeno Miguel, a televisão passou um filme cómico com Danny Kaye.
A TV portuguesa não passava filmes cómicos desde o dia 12 desse mês de Novembro de 1975; nessa data, um almirante sem papas nem tento na língua rompera um cerco a São Bento disparando uma salva de impropérios.

sábado, 17 de junho de 2017

Álvaro Belo Marques 1931 - 2017

Morreu o Álvaro Belo Marques, deixou-nos pelas 23 e 20 de sexta-feira, 16 de Junho.
Estou a vê-lo, em Maputo, segunda metade dos anos 80, de guarda-pó vestido, a conduzir uma motoreta, depressa, muito depressa para chegar a tempo de salvar o mundo. E no céu, sob o comando do grande capitão da generosidade e da imaginação, voavam papagaios de papel lançados pelas crianças dos bairros para lá do alcatrão. Deixa duas filhas, Vera e Alexandra, um filho, Dario, e um neto, Tiago, deixa também muitos e grandes amigos.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Diz que é uma espécie de currículo – V

Estava na rádio para ficar… e fiquei.
Fiz a primeira revista de imprensa em 10 de Abril de 2006, a última em 31 de Julho de 2015. Em 20 de Outubro de 2008 a revista passou a duas edições diárias: a primeira, pelas 7h 20m, de primeiras páginas, a segunda, pelas 8h 25m, do miolo dos jornais. Fazia a revista a partir de dez jornais e duas revistas, que recebia e lia a partir das 5h da manhã: Diário de Notícias, Jornal de Notícias, Correio da Manhã, Público, jornal I; Diário Económico, Jornal de Negócios; A Bola, Record, O Jogo; às sextas-feiras: VisãoSábado
Média diária de 3 quilos de papel de jornal.
Era duro mas fez-me muito bem à saúde: para aguentar o fôlego e a exigência da revista de imprensa, deixei de fumar.
E dava-me tanto gosto fazer a revista que até recusei, creio que em 2010, o convite da Administração da RTP para desempenhar o cargo de Provedor do Ouvinte.
Tinha uma grande vantagem para ler e passar em revista os jornais: trabalhava em casa. A RTP instalou-me em casa equipamento e linha telefónica RDIS (Rede Digital com Integração de Serviços): som de estúdio. 

Os jornais eram depositados por uma empresa distribuidora às 5 da manhã, no tapete da porta do meu apartamento; trabalhava na mesa da sala de jantar, com os jornais abertos, corria as primeiras páginas, tomava notas em cadernos grandes quadriculados; assinalava com marcadores de cores os títulos, as notícias, as fotos, os comentários, a paginação. Escrevia o texto da revista das primeiras páginas antes das seis horas e começava a folhear os jornais, a tomar notas para a segunda edição. Após a primeira edição da revista ir para o ar, começava a rever e ordenar as notas para escrever o texto da segunda edição.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Diz que é uma espécie de currículo IV

 De facto, a rádio…

A rádio estava escondida na proposta do Sérgio Figueiredo que em 1997 me levou para o Diário Económico. O jornal pertencia a Miguel Paes do Amaral, juntamente com o Independente, Grupo Media Capital, e Sérgio Figueiredo tinha o projecto de construir, a partir do Económico, uma redacção multimédia para jornal, rádio e TV. Cheguei a fazer o projecto de conteúdos para uma estação de rádio, em cima da data para concorrer a determinada frequência de radiodifusão. Um administrador anunciou à redacção:
- Ganhámos a frequência de rádio, o que ficamos a dever ao João Paulo Guerra.
Ao que respondi que só ficavam a dever se não quisessem pagar e de facto não deram sinal de querer. 

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Diz que é uma espécie de currículo - III

Com efeito, entretanto, voltei mais uma vez à rádio.
Telefonia de Lisboa 
Eu passara na década de 80 pelo movimento das rádios piratas – louco e heróico, diria o Manuel da Fonseca –, designadamente pela Telefonia de Lisboa. Mas, em Outubro de 1990, o convite veio do Emídio Rangel e a rádio era a TSF. E para ajudar o meu orçamento, a proposta compreendia colaboração com o semanário O Jornal, ligado empresarialmente à TSF. A rádio nacionalizada, que era quase toda, fechara-me as portas: estive arredado longos anos. Uma das muitas propostas que apresentei à rádio nacionalizada e que nem sequer recebeu resposta foi mais tarde um projecto de grande impacto e sucesso na TSF, as laureadas Viagens com Livros.
Reconstituição para O Jornal do assalto
ao avião da TAP em 1961: o
panfleto lançado sobre Lisboa, autografado
 por tripulantes e assaltantes do avião.
No semanário O Jornal consegui manchetes, como as relativas à extensão da rede Gládio em Portugal, fiz investigação sobre a história contemporânea do País, acompanhei casos de polícia. O repórter à antiga, na companhia de grandes mestres do jornalismo e da reportagem.

Na TSF entrei para editor e repórter na equipa que estava a fazer as edições do fim-de-semana: folgávamos segunda e terça, estudávamos a agenda na quarta – durante um almoço numa tasca nas imediações das Amoreiras, uma tasca chamada Regresso, o que me parecia um bom presságio para o meu regresso à rádio –, metíamos mãos à obra e pés ao caminho na quinta e sexta, sábados e domingos editávamos os noticiários e respectivas reportagens, mais um magazine de actualidades, Os Dias Andados. O editor da equipa era o Fernando Alves.  

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Diz que é uma espécie de currículo - II

        … No entanto, o semanário acabou antes de começar. Foi assim.

Número 0 do AE,
imagem da Galeria Virtual do Museu da Imprensa
Deixei o RCP, na Rua Sampaio e Pina, num dia de Novembro de 1973, mas no dia seguinte estava a trabalhar na rua Joaquim António de Aguiar, uma paralela, duas ruas adiante, descendo a Rodrigo da Fonseca, passando o Hotel Ritz, virando à direita, na redacção do semanário Actividades Económicas, o AE, um projecto financiado pelos irmãos Agostinho e José da Silva, accionistas maioritários da Torralta. Dinheiro não faltava: redacção com razoáveis ordenados para a época, equipamentos novinhos em folha que fariam do AE o primeiro jornal português com fotocomposição na redacção. E projecto também havia.
O escritor e jornalista Mário Ventura Henriques, que fazia a ligação entre a administração e a redacção, disse-nos que se tratava de um semanário para «fazer concorrência ao Expresso, pela esquerda». 

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Diz que é uma espécie de currículo - I

Rádio Renascença 1962
1962 – Entrei na rádio pelo Programa Nova Vaga, com outros jovens de então, nas tardes de sábado de Rádio Renascença: Fernando Correia (actual membro do Conselho de Opinião), João Mota, Lauro António, Dinis de Abreu, Daniel Ricardo, Maria do Céu Guerra e João Paulo Guerra. Programa de microfone aberto em directo para o gravador do José Manuel Moreno Pinto. Foi assim: o Dinis de Abreu, jovem jornalista no Diário Popular, formou a equipa e perguntou a minha mãe, Maria Carlota Álvares da Guerra, chefe de redacção da Crónica Feminina e cronista na RR, se conhecia jovens que quisessem participar no programa: entrei eu e a Maria do Céu, minha irmã; eu acabei por ficar na rádio, a Maria do Céu Guerra foi para o teatro. 
Quando a Nova Vaga acabou – e foi rapidamente – Joaquim Pedro convidou-me para ficar a estagiar como locutor na RR. Lia anúncios de estação – Rádio Renascença, Emissora Católica Portuguesa –, ligações e lançamentos entre programas, passagens à Basílica dos Mártires para o Terço e Bênção, o estágio era acompanhado por locutores consagrados da estação como Joaquim Pedro, Dora Maria, Maria José Baião, Luís Filipe Aguiar. Também “estagiava” vendo fazer e ouvindo João Martins, Armando Marques Ferreira, António Revés, e observando de perto o trabalho de técnicos como José Manuel Moreno Pinto, Alberto Moreno, José Ribeiro, António Ricardo.
Primeiro plano: JPG, Jorge Balsa, José Dias, António Ricardo e José Videira;
segundo plano: Moreno Pinto, Franquelim Rodrigues, José Neves de Sousa,
padre Miguel, NN, NN e Fernando de Almeida (treinador)
Em 1963, um ano após o início do estágio, recebi convite para me mudar para o Serviço de Noticiários do Rádio Clube Português. Na RR eu também dava notícias – recortadas dos jornais e coladas numa folha de papel: “O Senhor Presidente do Conselho recebeu hoje o senhor ministro da Defesa com quem o vemos na gravura acima”. De maneira que aceitei de primeira o convite, vindo do Luís Filipe Costa e transmitido pelo Matos Maia. O último acto em que participei como estagiário da RR foi um jogo de futebol contra o RCP. Perdemos.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Congresso deu a 80 estudantes de jornalismo a experiência de uma redacção

Rute Santos/ I.P.P.
Dezenas de computadores, máquinas em tripés, gravadores espalhados pelas secretárias. O ruído constante e a correria dos estudantes confirma o que parece impossível: uma equipa multiplataforma funciona dentro da sala 2 do Cinema São Jorge. É nesta sala convertida em redação que se reúnem mais de uma centena de profissionais, professores e alunos de comunicação, responsáveis pela cobertura do 4.º Congresso dos Jornalistas. Com um palco ao fundo e palavras de ordem espalhadas pelas paredes, cumprem a missão proposta pelo congresso: “Afirmar o jornalismo”.

sábado, 14 de janeiro de 2017

IV Congresso dos Jornalistas: precários e desempregados agora chamam-se Freelancers


Maioria dos jornalistas tem licenciatura em comunicação e investe na formação contínua mas recebe menos de 1.000 euros por mês, indica o mais recente e abrangente inquérito aos jornalistas, desenvolvido por uma equipa do CIES-IUL (ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa), em parceria com o Sindicato dos Jornalistas e o Obercom, em 2016.
Em 2016, 33,4% dos inquiridos não tinham contrato fixo e, portanto, trabalhavam em condições contratuais precárias e sujeitos a instabilidade, insegurança e fragilidade. 

sábado, 7 de janeiro de 2017

Mário Soares fica para a história colado à página da descolonização


Mário Soares: Acho que foi feita a descolonização possível
Spínola: O Dr. Mário Soares teve comigo duas ou três reuniões pessoais, secretas, chamando-me a atenção para os perigos que estávamos correndo…
Eanes: Houve várias divergências.

A vida de Mário Soares (1924 - 2017) marcou e foi marcada por décadas de protagonismo na história contemporânea de Portugal. Particularmente o 25 de Abril e a descolonização foram páginas da história às quais o nome de Soares ficará colado para sempre. 
Foi a «descolonização possível», disse.  
A página da História voltou-se em Abril de 1974. Três meses mais tarde, quando o chefe da nova diplomacia portuguesa, Mário Soares, subiu à tribuna da ONU, a assembleia ouviu, por fim, Portugal reconhecer os princípios da Carta das Nações Unidas e afirmar solenemente o propósito de descolonizar de acordo com os princípios da Carta. Apesar de ter perdido o tempo próprio da história, Portugal acordou do sonho imperial e mandou regressar as caravelas: a descolonização fez-se, com mais ou menos traumatismos.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

A clara idade assombrada da poesia de Cabo Verde

João Paulo Guerra, TSF,
9 de Janeiro de 1991, Cidade da Praia

Oswaldo Osório
Inesperadamente, calou-se a algazarra da campanha eleitoral na Cidade da Praia, para ouvir a voz de um poeta. A homenagem ao poeta Oswaldo Osório marcou a abertura de um centro cultural que procura ser um ponto de encontro para os escritores cabo-verdianos.
Oswaldo Osório – pseudónimo literário de Osvaldo Alcântara Medina Custódio – nasceu na cidade do Mindelo, Ilha de São Vicente, em 25 de Novembro de 1937. Clar(a)idade Assombrada, publicada em 1987,  é o seu terceiro e mais recente volume de poesia, sucedendo a Caboverdeanamente Construção Meu Amor (1975), Cântico do habitante. Precedido de Duas Gestas (1977).
A poesia de Oswaldo Osório saiu impressa com a liberdade. Anteriormente, o poeta estivera preso duas vezes por razões políticas.

JPG - Ouvi-o referir-se, na homenagem que aqui lhe foi prestada, à língua cabo-verdiana. O que é a língua cabo-verdiana e o que é Cabo Verde em termos literários ao cabo de dezasseis anos de independência?
Oswaldo Osório – A língua cabo-verdiana é a nossa língua materna. E a língua portuguesa, sem ser para nós uma língua estrangeira, é uma língua segunda, mas é também a língua oficial. A língua cabo-verdiana tem passado por vários tratamentos de natureza linguística de modo a torná-la mais plástica na literatura escrita. E tem sido feito um grande esforço no sentido da modernização da língua, estabelecimento de regras, etc., que certos jovens, como por exemplo Tomé Varela, têm vindo a investigar no campo da oralidade e escrevendo totalmente em língua cabo-verdiana.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Histórias do Congo à margem da História


Estive por duas vezes em serviço de reportagem no Congo Kinshasa, actual República Democrática do Congo, então presidida pelo ditador Mobutu ou, como ele queria que lhe chamassem, Mobutu Sese Seko Nkuku Ngbendu wa Za Banga, isto é, O Todo Poderoso Guerreiro que, Por Sua Força e Inabalável Vontade de Vencer, Vai de Conquista em Conquista, Deixando Fogo em Seu Rastro. 
Nessas visitas, reportei as viagens de dois Presidentes da República Portuguesa que fiquei a conhecer melhor.



quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Cores felizes na paleta de Malangatana


Por João Paulo Guerra,
TSF, Outubro 1994

Moçambique está em Festa, uma festa com muitas cores. Nesta quadra de eleições multipartidárias, Moçambique está multicolor.
Estou na cidade de Maputo, no Bairro do Aeroporto, no atelier do pintor Malangatana Valente Ngwenya, moçambicano, 58 anos, um artista do mundo e da paz. Este homem que esteve preso três vezes pelo regime colonial, uma das quais por motivo de um quadro que pintou, o quadro “25 de Setembro”, a data do início, em 1964, da luta armada pela libertação, e que depois da independência do seu país esteve de novo detido, dessa vez num campo de reeducação, como castigo pelo seu comportamento na época colonial, este homem está também em Festa, agora que Moçambique tem eleições multicolores.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Os Olhos Azuis do cinema na Guiné-Bissau

Entrevista com o realizador guineense Flora Gomes.

João Paulo Guerra, TSF, 26 de Janeiro de 1991,
Aeroporto Internacional Osvaldo Vieira, Bissau


No regresso a Lisboa, após a reportagem de um processo político que culminou com a introdução do multipartidarismo na Guiné-Bissau, o repórter cruzou-se no aeroporto com o realizador de cinema Flora Gomes. Nascido em 1949 em Cadique, tabanca a sul de Bissau, uma das principais povoações produtoras de arroz no tempo colonial, Florentino Gomes foi levado pela guerrilha guineense para estudar em Conakry e mais tarde em Cuba. Voltou formado em cinema. Filmou os últimos anos de guerra e depois da independência começou a filmar histórias para o futuro do seu país.
Foi muito bem empregue o tempo de espera naquele dia de Janeiro de 1991, no aeroporto de Bissau.

Pergunta – Como é que um guineense chega a realizador de cinema?
Flora Gomes – Bom, no meu caso foi muito simples. Eu fui dos jovens que a guerrilha, quando passou pela minha aldeia, levou para Conakry para receberem instrução. Fiz a escola primária, a secundária e estudos pré-universitários…


sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Luiz Pacheco: Eu acho mesmo que o mundo está cada vez melhor …


Entrevista de João Paulo Guerra
TSF, 19 de Maio de 1992, 19 horas

Da autoria do escritor Luiz Pacheco sai hoje [Maio de 1992] a reedição de O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica, o Seu Esplendor. Um acontecimento num país que também nas letras é geralmente de brandos costumes.


O Libertino etc., foi escrito em 1961 e publicado em 1970 provocando muito escândalo. É a narrativa de um dia passado numa Braga lúbrica. E logo Braga, a cidade dos arcebispos. O próprio autor filiou a narrativa numa corrente neo-abjeccionista.
Com 67 anos de uma vida airada, Luiz Pacheco vive actualmente em Setúbal. E é de lá, em directo, que aceita conversar sobre a reedição – para a qual deu uns retoques no texto de O Libertino… –, sobre a actualidade que, seja onde for, acompanha com atenção: a reforma da PAC ou a reserva dos coronéis, o pacote Delors 2 ou o Evangelho segundo Sousa Lara, o Tratado de Maastricht ou a nova Ponte sobre o Tejo, numa conversa de ida e volta ao mundo, com partida da Europa.

Luiz Pacheco – Europa? Qual Europa?

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

O Cenáculo da Marquesa



Por João Paulo Guerra, 
Telefonia de Lisboa, Janeiro de 1987

          O tempo parou ali há muito tempo como que imobilizado num daguerreótipo antiquíssimo, amarelecido nos cantos, esbatido no centro do plano de conjunto. Mesmo assim, distingue-se o conjunto: onze figuras de cera em redor de uma mesa, todos eles voltados ligeiramente sobre o lado direito, fixando a posteridade.
Ilumina-se a cena e distinguem-se então as cores, tons de cinza e violeta, esmaiados sobre o fundo austero de uma estante de mogno onde jazem livros encadernados pelo pó, o bafio, o esquecimento. Reposteiros pesados coam os sons da vida e tornam mais íntimos os sussurros das conversas, por onde passam, em ladainha, os nomes de legiões de fantasmas, a memória de irremediavelmente perdidos tempos de grandeza, sonorizados pelo tilintar das porcelanas e das dentaduras postiças, o ronronar dos catarros. 

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

DIAS DA RÁDIO

O Serviço de Noticiários do RCP
nas páginas da revista Antena: Luís Filipe Costa,
Paulo Fernando, Manuel Bravo e Firmino Antunes.
João Paulo Guerra, Carlos Manuel e Fernando Quinas. 


textos de João Paulo Guerra,
2011 / 2012, 
no blogue 

“KUANDO OS RÁDIOS ERAM CLUBES”, 

de PAULO 
"Tac Tac" FERNANDO





Nos idos de 60/70, como grande parte dos jovens desse tempo, houve uma fase em que usei grandes barbas e cabelame que me faziam parecido com o baterista dos Marretas. A verdade é que ninguém tinha nada com isso. E menos ainda o director dos serviços de censura interna do RCP, António Augusto Moita de Deus, o Arbusto Divino, ou o Moita-Carrasco, conforme os gostos. Ele que cortasse textos ou fitas de arrasto; na minha barba e cabelo não tocava.

... FP-25 disputam share com o Papa

EM CIMA DO ACONTECIMENTO ..
Por João Paulo Guerra
10 de Maio de 1991


Naquele dia de Maio de 1991, o acontecimento era a chegada do Papa e Lisboa. E ninguém previa que pudesse acontecer alguma coisa em cima de tal acontecimento. 

       Mas aconteceu. 

terça-feira, 22 de novembro de 2016

«O arcebispo de Braga absolveu-nos»

Sanches Osório,
 ex-major do MFA 
ex-dirigente  MDLP


Entrevista de João Paulo Guerra / Abril 1999

José Eduardo de Sanches Osório era major de Engenharia em 1974 e fez parte do Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas, no quartel da Pontinha, na madrugada de 25 de Abril. De formação monárquica e católica e pertencendo à casta dos oficiais do Corpo de Estado-Maior, Sanches Osório aderiu ao Movimento dos Capitães em 1973 para derrubar Marcelo Caetano. Ministro da Comunicação Social no II Governo Provisório, o primeiro de Vasco Gonçalves, entrou em ruptura com a revolução por alturas do 28 de Setembro. E na sequência do 11 de Março foi expulso do Exército e deixou o país clandestinamente para fugir a um mandado de captura. No exílio participou na fundação do Movimento Democrático de Libertação de Portugal (MDLP), liderado por Spínola e chefiado por Alpoim Calvão. Desempenhou funções de embaixador itinerante da contrarrevolução, mas diz que não levava a sério o plano do general para invadir Portugal e reconquistar o poder.